OBEDIÊNCIA – Significado

OBEDIÊNCIA – Nas escrituras hebraicas e gregas, as palavras traduzidas como “obedecer” ou “obediência” frequentemente são “shama‘” e suas formas cognatas em hebraico, e as formas cognatas de “akouo” em grego. A raiz do significado dessas palavras é “ouvir”. Na verdade, muitas vezes, quando um tradutor se depara com essas palavras e seus cognatos, é necessário determinar se a tradução mais relevante é “ouvir” ou “obedecer”. Essa complexidade oferece uma visão profunda do conceito bíblico fundamental de conformidade, um conceito presente tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Embora a obediência possa expressar uma ação comum nas relações humanas, como a obediência dos discípulos aos mestres ou dos filhos aos pais, seu significado mais significativo está relacionado ao relacionamento entre o ser humano e Deus. Deus se revela ao ser humano por meio de Sua voz e Suas palavras. Essas palavras devem ser ouvidas, envolvendo uma recepção física das palavras com uma compreensão mental de seu significado presumido.

No entanto, simplesmente ouvir não constitui uma proposta verdadeira. A verdadeira atitude de ouvir está ligada à fé que recebe a Palavra divina e a coloca na prática, uma resposta de fé que é positiva e ativa, não uma mera audição passiva. Ouvir é agir. Em outras palavras, ouvir verdadeiramente a Palavra de Deus é obedecer à Palavra de Deus. No Novo Testamento, a ideia de assumir a responsabilidade de obedecer à Palavra ouvida, ou de se submeter a essa responsabilidade, é enfatizada claramente pelo termo “hupakouo“, que é uma composição das palavras “sob” e “ouvir“.

Muitos versículos que falam sobre ouvir e obedecer destacam esse aspecto de uma resposta positiva e ativa. Por exemplo, “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mateus 11.15; cf. Mateus 13.9, 43; Apocalipse 2.7, 11, 17, 29; 3.6, 13, 22; 13.9). O homem sábio é aquele que “ouve estas minhas [do Senhor Jesus] palavras e as práticas” (Mateus 7.24). “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e… me seguem” (João 10.27). Com relação à revelação que João recebeu na Ilha de Patmos, ele disse: “Bem-aventurado(s)… os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas” (Apocalipse 1.3). Não há separação entre ouvir e obedecer. O verdadeiro ato de ouvir é a obediência. A fé, por si só, envolve a conformidade. O Senhor Jesus, Paulo e Tiago deixam claro que a verdadeira fé resulta em obediência.

No Antigo Testamento, a fé de Abraão em Deus e sua obediência à Sua voz foram fundamentais para que todas as nações da terra fossem abençoadas (Gênesis 15.6; 22.18; 26.4,5). Obedecer à voz de Deus é equivalente a guardar Sua aliança (Êxodo 19.5; cf. Êxodo 23.20-22); portanto, quando o Livro da Aliança foi ratificado com a aspersão de sangue, os israelitas prometeram obedecer (Êxodo 24.7,8). A renovação da dedicação do povo à orientação à lei era uma parte fundamental das cerimônias de renovação da aliança (Deuteronômio 27.1-10; 30.2, 8, 20; Josué 24.24-27).

Ao repreender o rei Saul por sua obediência incompleta, Samuel ensinou uma importante lição de que obedecer é melhor do que sacrificar (1 Samuel 15.22). Nos séculos seguintes, a nação de Israel foi repetidamente anunciada por sua desobediência a Deus e Sua lei (Isaías 42.24; Jeremias 3.13; Jeremias 7.23-28; Sofonias 3.2; Neemias 9.17,26). A obediência, ou a falta dela, pode ser tanto um ato interior do coração (Provérbios 3.1) quanto uma obediência meramente externa, forçada (Salmo 72.8-11).

No Novo Testamento, Paulo fala da “obediência da fé” por parte dos cristãos (Romanos 1.5; cf. Atos 6.7). A frase em grego é a mesma usada em Romanos 16.26, onde ele escreve que o evangelho leva à “obediência da fé”. O apóstolo está claramente se referindo ao desejo de Deus de que os gentios, ao ouvirem o evangelho, o obedeçam ao receber-lo pela fé e confiar em seus termos (cf. 1 Pedro 1.2,22; 1 João 3.23). Paulo também adverte sobre o terrível castigo que aguarda aqueles que se recusam a obedecer ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo (2 Tessalonicenses 1.8; cf. Romanos 2.8; 1 Pedro 2.7,8). Ele elogia os coríntios por sua obediência ao evangelho de Cristo que professavam (2 Coríntios 9.13).

Como exemplo supremo de obediência, Paulo e Pedro apontam para o Senhor Jesus Cristo, que “humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte” (Filipenses 2.8; cf. 1 Pedro 2.18,21). Paulo fala da obediência de Cristo ao realizar a expiação pelos pecadores, em contraste com a desobediência de Adão e seus descendentes (Romanos 5.19). A declaração em Hebreus 5.8 de que Ele “aprendeu a conformidade, por aquilo que padeceu”, significa que Cristo tornou-se a experiência da obediência ao Pai algo tangível. Ao isso, Ele cumpriu o propósito eterno da Divindade, vivendo toda a Sua vida como nosso representante, obedecendo e sofrendo em nosso lugar e por nossa causa, satisfazendo plenamente a lei em todos os seus aspectos.

A Palavra de Deus exorta os servos (escravos) a obedecerem a seus senhores (Efésios 6.5-8; Colossenses 3.22; 1 Timóteo 6.1; Tito 2.9); os cristãos, a obedecerem a seus líderes (Hebreus 13.17); as mulheres, a obedecerem a seus maridos (Tito 2.5; Efésios 5.22-24; 1 Pedro 3.1-6); e os filhos, a obedecerem a seus pais (Efésios 6.1; Colossenses 3.20; cf. Provérbios 6.20; 23.22; 29.15). Portanto, os crentes, como um todo, são caracterizados como “filhos obedientes” (1 Pedro 1.14; cf. Romanos 6.16,17; Hebreus 5.9). A desobediência aos pais é considerada um sinal de depravação humana (Romanos 1.30) e um sinal dos últimos dias (2 Timóteo 3.2). Os cristãos são instruídos a fazer com que cada pensamento humano se submeta à obediência a Cristo (2 Coríntios 10.5).

O mais alto nível de obediência para o cristão é fazer a vontade de Deus de todo o coração (Romanos 6.17), não apenas externamente, mas com um espírito de obediência que cria o desejo de obedecer em pensamentos e atitudes (por exemplo, Mateus 5.28 ,44; 19,21,22). O cristão possui a mente de Cristo (Filipenses 2.5), pois a Palavra de Deus está dentro de seu coração, e ele se deleita em fazer a vontade de Deus (Salmo 40.8; cf. Hebreus 10.5-9).

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