Jó 14: “Porque há esperança para a árvore cortada… Ao cheiro das águas brotará?”

Será que Jó estava certo quando questionou a Deus dizendo “Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó, ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta. (Jó 14:7-9).

Qual o versículo que fala “há esperança para a árvore cortada… Ao cheiro das águas brotará”?

Na verdade, são 3 versículos, Jó:7-9.

“Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó, Ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta.”

O contexto de Jó 14

Zofar havia garantido a Jó que ainda haveria esperança, caso ele reconhecesse seus pecados e se arrependesse (Jó 11:13-20). Mas Zofar não se encontrava na situação de Jó!

Do ponto de vista de Jó, seu futuro era desanimador. Nos versículos 1 a 12, Jó empregou várias imagens para ilustrar a situação desesperadora do ser humano neste mundo.

É como uma flor que logo seria cortada, uma sombra que desaparece lentamente, um jornaleiro que trabalha e depois é dispensado. Deus conhece os limites de nossos dias (7:1; 14:5; SI 139:16).

Em sua insensatez, um suicida pode apressar o dia de sua morte, mas ninguém vai além dos limites estabelecidos por Deus para sua vida. Uma vez que o ser humano é apenas uma flor, uma sombra e um servo, por que Deus lhe daria alguma atenção?

Tendo em vista que a vida é tão curta, por que Deus encheria os dias do homem de tristeza e dor? “Desvia dele [do homem] os olhares, para que tenha repouso […] [para que] tenha prazer no seu dia” (Jó 14:6).

Em outras palavras, o que Jó está pedindo é: “Deixe-me ter um pouco de paz antes que minha vida tão breve chegue ao fim!”

Porque Jó disse que há esperança para a árvore cortada

A imagem mais forte que Jó apresenta é de uma árvore (vv. 7-12). Ainda que seja cortada, seu toco permanece, e há sempre a possibilidade de voltar a brotar.

A árvore tem esperança, mas o ser humano não. Quando morre, não deixa sequer um toco para trás.

O ser humano é mais parecido com a água que evapora ou penetra o solo irreversivelmente (v. 11; 2 Sm 14:14).

Pode se deitar à noite e despertar pela manhã, mas quando se deita para sua própria morte, não há certeza alguma de que voltará a despertar.

Porque Jó não acreditava na esperança de vida futura?

As primeiras pessoas que, como Jó, eram tementes a Deus, não possuíam uma revelação da vida futura como temos hoje em Cristo (2 Tm 1:10).

As passagens do Antigo Testamento indicam vagamente uma ressurreição futura (SI 16:9-11; 17:15; Is 26:19; Dn 12:2), mas Jó não tinha nenhum desses livros para ler e meditar.

“Morrendo o homem, porventura tornará a viver?” (Jó 14:14). Jó apresenta essa pergunta crítica, mas não
lhe responde.

Posteriormente, Jó faz uma declaração maravilhosa sobre a ressurreição futura (19:25, 26). Mas, nesse momento, ainda vacila entre o desespero e a esperança.

A esperança de Jó estava apenas na terra?

Em 14:13, Jó pediu a Deus que se lembrasse de trazê-lo de volta do Sheol, o reino dos mortos. E bem provável que não tivesse em mente a ressurreição, mas sim uma breve estadia na terra para que Deus o justificasse diante de seus acusadores.

Claro que, hoje, o cristão é selado com o Espírito Santo para o dia da redenção (Efésios 1:13, 14) e Deus não se esquecerá de nenhum de seus filhos na ressurreição (1 Coríntios 15:50-58).

Jó acreditava que Deus se ocupa mais em registrar seus pecados em vez de cuidar de sua criatura?

Jó lembrou ao Senhor que era feitura das mãos de Deus (Jó 14:15), argumento já usado anteriormente (10:3).

Para Jó, parecia que, em vez de cuidar de sua criatura, Deus não fazia outra coisa senão manter um registro de seus pecados.

Que esperança Jó poderia ter enquanto Deus o estivesse investigando e elaborando seu pleito contra ele?

Em vez de purificar os pecados de Jó, Deus os estava ocultando sem sequer dizer a Jó quais eram suas transgressões!

“Assim destróis a esperança do homem” (Jó 14:19)

Jó se queixou dizendo: “Assim destróis a esperança do homem” (14:19), e usou duas ilustrações para provar como isso era verdade.

O ser humano parece uma montanha inabalável, mas, aos poucos, a água vai erodindo a rocha e, um dia, a faz desmoronar.

Ou, ainda, um terremoto pode abalar as rochas, deslocando-as para outro lugar e mudando o aspecto da montanha.

A morte pode vir de modo gradual ou súbito, mas certamente virá, e o ser humano partirá para um mundo no qual não saberá coisa alguma sobre o que acontece com sua família. Jó ansiava por esse alívio da tristeza e da dor.

O que aprendemos com Jó 14?

Em meio a um sofrimento intenso, é fácil as pessoas pensarem que o futuro é desanimador e que Deus as abandonou.

O famoso psiquiatra norte-americano Karl Menninger chamava a esperança de “principal arma contra o ímpeto suicida”.

Aqueles que não têm esperança acreditam que não vale a pena viver, pois não veem coisa alguma no futuro além de dor e fracasso. Concluem que é melhor morrer do que continuar vivendo e ser um fardo para si mesmos e para outros.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche chamava a esperança de “o pior de todos os males, pois prolonga o tormento do homem”.

Porém, aquele que crê em Jesus Cristo participa de uma “esperança viva” que se torna mais maravilhosa a cada dia (1 Pedro 1:3).

As esperanças mortas desaparecem, pois não têm raízes, mas nossa “esperança viva” se torna cada vez melhor, pois está arraigada no Cristo vivo e em sua Palavra Viva.

A certeza da ressurreição e da vida na glória é uma forte motivação para prosseguirmos, mesmo quando as coisas ficam difíceis (1 Coríntios 15:58).

Charles L. Allen escreveu: “Quando dizemos que não há esperança para uma pessoa ou situação, na verdade estamos batendo a porta no rosto de Deus”.

Jó ainda não havia batido a porta, mas estava perto de fazê-lo, e seus amigos não estavam ajudando em nada.

“E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Romanos 15:13).

Texto extraído do comentário expositivo de Wiersbe.

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