Parábola das Duas Casas: A Grande Lição de Estar Edificado na Rocha e não na Areia

A Parábola das Duas Casas, que constitui a parte final do Sermão da Montanha, é precedida pelo ensino de um princípio vital que distingue entre obediência e desobediência. Antes de apresentar o sentido prático do seu ensino nos versículos 21 ao 23, a parábola adverte claramente que não é suficiente realizar apenas práticas exteriores de espiritualidade.

Embora uma religiosidade exterior baseada em regras e conceitos de moralidade possa parecer impressionante, não nos levará ao céu, a menos que nossa conduta interna corresponda ao que praticamos externamente. Portanto, Deus espera de nós atitudes interiores de fé e obediência, que se manifestem em nossas ações exteriores.

O que Jesus está Ensinando na Parábola das Duas Casas

Jesus estava preocupado com uma fé superficial que se expressava apenas em palavras, uma mera profissão sem verdadeira essência. Além disso, Ele também enfatizou que não é suficiente apenas ouvir a verdade, é crucial praticá-la. A maneira como ouvimos os ensinamentos de Jesus reflete na forma como os colocamos em prática.

Na parábola das duas casas, aprendemos sobre a importância do compromisso com o cristianismo genuíno e como Jesus habilmente a usou para ilustrar essa verdade. Ele compara duas construções feitas por diferentes pessoas: uma “sobre a rocha” e outra “sobre a areia”. Essa comparação nos ensina fundamentalmente como devemos construir nossa vida espiritual; no entanto, também indica o tipo de material de construção e o solo sobre o qual edificamos.

O princípio essencial de “ouvir e praticar“, “obedecer e desobedecer” será reconhecido através de nossas ações, em relação a Deus e ao mundo em que vivemos.

Contexto: Advertências que Precedem a Parábola das Duas Casas

Esta parábola apresenta verdades contrastantes com o ensino dos escribas e fariseus. Ao concluir seu discurso, Jesus deixou a multidão admirada com sua doutrina, pois Ele a ensinava com autoridade, ao contrário dos escribas. Enquanto estes últimos se baseavam na força da letra dos oráculos de Deus, a autoridade de Jesus emanava do espírito desses mesmos oráculos. Dessa forma, o ensino de Jesus revelava a hipocrisia de seus inimigos.

Para compreendermos a essência da Parábola das Duas Casas, é fundamental considerar o contexto do ensinamento que Jesus queria transmitir a seus discípulos. Essa parábola utiliza uma linguagem figurada para ilustrar a importância da firmeza e, simultaneamente, da vulnerabilidade das pessoas em relação às coisas espirituais. Ao longo de seu discurso, o Mestre já havia exortado seus ouvintes sobre certos cuidados que deveriam ter, e essas advertências são esclarecidas pelo enredo da parábola.

De acordo com os comentários bíblicos do teólogo J. C. Ryle sobre o Evangelho de Mateus, podemos observar três grupos de religiosos: os “falsos profetas” (Mt 7.15-20), os “falsos professos” (vv. 21-23) e os “falsos ouvintes” (vv. 24-27).

Primeira advertência: Distinguir o falso e o verdadeiro

Jesus adverte fortemente contra a presença de “falsos profetas” que surgem no seio da igreja. No capítulo anterior (versículos 13 e 14), Ele utiliza a metáfora das “duas portas” e dos “dois caminhos” para transmitir um ensinamento importante a seus ouvintes. Através dessas figuras implícitas, Ele enfatiza a diferença entre o caminho largo e o estreito, assim como a porta estreita e a larga.

Aqueles que optam pelo caminho estreito devem estar alertas, pois enfrentarão ameaças ao longo do trajeto, representadas pelos “falsos profetas”. Esses enganadores buscam desviar e interceptar os seguidores, impedindo-os de alcançar o Reino dos céus. Jesus os descreve como “lobos vestidos de ovelhas”, pois se apresentam de forma aparentemente santa, mas suas intenções são nefastas.

Os falsos profetas se autodenominam mensageiros de Deus, mas deturpam a mensagem original para atender a seus próprios interesses. Em contraste, um profeta verdadeiro recebe uma mensagem diretamente de Deus e a entrega fielmente, sem adicionar ou diminuir nada. Sua missão é guiar as pessoas nos caminhos de Deus, mas os falsos profetas os conduzem para fora da vontade divina, agindo como pastores inúteis que negligenciam e abusam das ovelhas.

Jesus alerta para a presença contínua de falsos profetas na igreja e encoraja a avaliação cuidadosa de suas palavras e ações. Os seguidores de Cristo devem discernir a autenticidade de tais líderes, julgando-os pelos frutos que produzem, em conformidade com os princípios bíblicos. Infelizmente, a presença desses enganadores pode causar danos significativos à igreja, levando-a para caminhos desviados e distanciando-a da verdadeira mensagem de Cristo.

Assim, a capacidade de discernir entre o falso e o verdadeiro é crucial para manter a integridade da igreja e evitar distorções e heresias.

A segunda advertência: Dizer sem fazer (Mateus 7: 21-23)

Como mencionamos anteriormente, J. C. Ryle identificou um segundo grupo de religiosos conhecidos como “os falsos professos”. Quem são eles e como agem? Essas pessoas fazem uma declaração de fé verbal, professando crer no Evangelho, mas sua fé é falsa, pois suas palavras não se refletem em suas ações.

O teólogo inglês, John Stott, interpretou esse texto de Mateus como uma mera profissão de fé verbal. Aqueles que apenas dizem crer em Jesus, mas não vivem de acordo com essa crença, estão na verdade negando aquilo que afirmam acreditar. Eles confessam com a boca, mas suas obras os contradizem. Jesus destaca que nem todos os que falam muito estão de fato expressando a verdade do coração. No versículo 22, Ele menciona que “muitos, naquele dia, hão de dizer”, deixando claro que há uma diferença entre o mero ato de falar sem compromisso com Deus e aqueles que, em um momento posterior, tentarão justificar-se diante Dele, mas será tarde demais.

A verdadeira mensagem de Jesus é que devemos sim confessar nossa fé verbalmente, mas isso deve ser acompanhado pela obediência ao que Ele ensinou. Pois, Deus nos julga com base em nosso coração e atitudes, não apenas em nossas palavras.

Jesus, ao discursar, não estava se dirigindo a pessoas irreligiosas, mas sim àqueles que afirmavam crer nEle. Eram indivíduos exigentes em relação aos requisitos das leis mosaicas, porém, não eram sinceros em sua prática. Essas pessoas chamavam a Deus de Senhor, mas não cumpriam Sua vontade verdadeiramente. Jesus destaca que não basta apenas dizer “Senhor, Senhor”, é necessário que nossa confissão seja genuína, verdadeira e acompanhada de uma obediência real ao Senhor.

A terceira advertência: Ouvir e não praticar o que ouviu (Mateus 7:24-26)

Ryle aponta o terceiro grupo de religiosos, os chamados “falsos ouvintes”, mencionados no versículo 26: “E aquele que ouve estas minhas palavras e as não pratica…”. Nessa categorização, existem dois tipos de ouvintes: aquele que ouve e coloca em prática, e aquele que ouve, mas não põe em prática.

Os seguidores de Jesus são desafiados a não apenas ouvirem suas palavras de vida eterna, mas também a aplicá-las em suas vidas. Aquele que “ouve e pratica” é comparado a um “homem prudente“, enquanto o que apenas “ouve e não pratica” é comparado a um “homem insensato“.

Tiago, irmão de Jesus, enfatiza a verdadeira religião, que consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações e manter-se íntegro em relação ao mundo. Ouvir, nesse contexto, é um ato volitivo, uma decisão consciente de crer. Crer é querer, pois implica em superar o “ego humano” e adquirir sabedoria por meio das palavras de Cristo.

A prática do que se ouve de Jesus envolve superar os desafios do “caminho estreito e da porta estreita” (Mateus 7.13,14). É um compromisso em viver em conformidade com os ensinamentos de Cristo, mesmo diante das dificuldades apresentadas pelo caminho exigente e restrito que Ele propõe.

Explicação da Parábola das Duas Casas em Mateus 7-24-17

Explicação da Parábola das Duas Casas em Mateus 7:24-17

Todo o contexto da parábola das duas casas foi preparado por Jesus para apresentar uma importante lição aos seus ouvintes. A história das duas casas, uma construída sobre a rocha e outra sobre a areia, seria apenas um conto interessante sem nenhuma relevância se não houvesse um propósito especial por trás dela, conforme pretendido pelo próprio Jesus. Na verdade, essa parábola tinha um caráter ilustrativo, destinado a reforçar as verdades que Ele estava transmitindo.

Nos versículos 24 a 27, Jesus direciona sua mensagem após ensinar sobre a importância da união entre “o dizer e o fazer” e “o ouvir e praticar”. Ele enfatiza que aqueles que aceitam e praticam suas doutrinas alcançarão o Reino dos céus, enquanto os que as rejeitam enfrentarão um destino trágico.

Para tornar seu ensinamento mais claro, Jesus apresenta a Parábola das Duas Casas, usando a construção das casas como uma metáfora para o desenvolvimento do caráter das pessoas. Nessa parábola, destacam-se dois personagens: o homem prudente e o homem insensato. As casas que eles constroem simbolizam a base de seu caráter. Quando as tempestades de chuvas e vendavais desabam sobre essas construções, revela-se a solidez ou fragilidade de cada uma.

Enquanto o homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha firme, suporta as vicissitudes da vida com segurança e estabilidade, o homem insensato, cuja casa foi construída sobre a areia, não resiste ao revés e desmorona completamente.

Assim, Jesus utiliza essa parábola para transmitir uma importante lição sobre a importância de fundamentar nossa vida e caráter em bases sólidas e seguras, para que possamos resistir às adversidades da vida e alcançar a verdadeira estabilidade espiritual.

O homem prudente

Para identificar “o homem prudente” (v. 24) descrito na parábola das duas casas, é fundamental compreender que a prudência não é apenas uma qualidade da alma ou do espírito, mas sim uma característica vital para a sobrevivência. O comportamento equilibrado desse indivíduo é sugerido pela parábola. Ele sabe claramente o que deseja e age com conhecimento de causa. Suas ações são guiadas por um raciocínio equilibrado, evitando ser movido apenas por emoções passageiras e preferindo escolhas consistentes.

Uma pessoa prudente desenvolve a capacidade de moderação, cautela e sensatez, o que a torna sábia, pois constrói sua vida sobre um fundamento firme. A prudência é uma qualidade moral que pode ser cultivada, especialmente por pessoas de temperamento colérico ou sanguíneo, que têm tendência à precipitação. A moderação, ponderação, precaução e sensatez são sinônimos que devem guiar nossa vida na construção de valores morais e espirituais.

O texto enfatiza que o homem prudente, apesar de enfrentar desafios em seu caráter, permaneceu firme. Ele não se deixou desanimar pelas tempestades que o atingiram, pois construiu sua casa sobre a rocha. Essa construção sobre a rocha significa escutar as palavras de Jesus e colocá-las em prática, ou seja, viver de acordo com seus ensinamentos.

Nossa vida diária é uma jornada de aprendizado contínuo, e ao ouvirmos e praticarmos a palavra de Deus, construímos uma vida estável e fundamentada em Jesus, a rocha sólida que sustenta nossa existência (Is 28.16; 1 Co 3.11; 1 Tm 1.1; At 4.11,12).

O homem insensato

O que é insensatez? De acordo com os dicionários, “insensatez” refere-se à falta de senso, indicando alguém demente ou tolo. As características de uma pessoa tola são claras: ela está sempre apressada, buscando resultados imediatos e incapaz de esperar.

Na parábola das duas casas, o homem foi insensato porque não se preocupou em construir sua casa com segurança (v. 26). Ele se deixou enganar pelas aparências, buscando atalhos e soluções rápidas. Esse tipo de abordagem espiritual revela uma fé frágil, não fundamentada em algo consistente.

Nos dias atuais, encontramos muitas pessoas com essa fé superficial, cujos alicerces são vulneráveis e propensos a decepções e frustrações. Ao construir uma casa, é essencial fazê-lo de maneira cuidadosa e sólida. Da mesma forma, na vida espiritual, alicerces sólidos são cruciais para uma fé verdadeira. Infelizmente, os tolos desvalorizam o ensino e a instrução, buscando caminhos mais fáceis e ignorando os princípios essenciais.

A busca por resultados imediatos pode levar ao descuido com as bases necessárias para uma vida espiritual sólida. A pressa e a falta de paciência podem resultar em decisões impulsivas e equivocadas. Portanto, é vital aprendermos a construir nossa fé com sabedoria, cultivando um relacionamento profundo com Deus, estudando Sua Palavra e buscando orientação em Sua vontade. Somente assim estaremos preparados para enfrentar os desafios da vida com uma fé firme e inabalável.

A firmeza da casa sobre a rocha e as tempestades (Mateus 7:25)

A construção dessa casa possui um significado mais amplo, incluindo a edificação de nossa fé nas palavras de Cristo (Mateus 7:24). Além disso, há implicações morais, pois está relacionada à construção do caráter, e aspectos espirituais, referentes à nossa fé e como a colocamos em prática. É fundamental que estejamos bem construídos para não sucumbir.

Quando Jesus menciona que os elementos naturais “combateram” a casa (v. 25), isso indica que forças poderosas, como chuvas, ventos e correntezas, podem se lançar sobre nossa vida. No entanto, Ele enfatiza que a casa foi “edificada” sobre um fundamento sólido, resistente e profundo (Pv 12.7; Is 28.16). Tudo o que tentar abalar essa construção não terá sucesso por causa da solidez dos fundamentos, ou seja, a nossa vida espiritual.

A firmeza dessa edificação está nos materiais que utilizamos para construir o fundamento. Nesse sentido, a casa permanece firme e não cai, pois sua sustentação é forte e confiável. Ao estabelecer nossas crenças sobre os ensinamentos de Cristo e praticá-las, estamos construindo uma fé sólida capaz de resistir às adversidades.

Assim como uma casa bem construída é capaz de suportar as intempéries do tempo, nossa fé fundamentada nas palavras de Jesus nos fortalece diante dos desafios e provações da vida. Ao nos apoiarmos em princípios sólidos e verdadeiros, alicerçados nas verdades espirituais, podemos enfrentar as lutas e permanecer inabaláveis. A casa edificada sobre rocha simboliza a solidez da fé que, quando colocada em prática, torna-nos capazes de enfrentar os obstáculos e permanecer firmes em nosso caminho espiritual.

O homem que construiu sua casa sobre a areia (Mateus 7:26)

Jesus chamou esse homem de “insensato”, ou seja, carente de senso ou razão, alguém que não demonstra bom juízo. É fácil perceber a falta de juízo quando alguém decide construir sua casa sobre a areia. Certamente, essa pessoa não possui senso de inteligência algum. Entre os dois homens ilustrados por Jesus, há um contraste entre “ouvir” e “fazer”. Se o construtor tivesse bom senso, jamais escolheria a areia como base para sua casa.

A areia pode representar as opiniões humanas, a justiça própria ou a auto-suficiência. Há pessoas que, alimentadas por um ego inflado de sua natureza pecaminosa, rejeitam qualquer instrução, seja humana ou religiosa. A Bíblia afirma que “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução” (Pv 1.7). Essa parábola visa mostrar que o “homem insensato” representa aquele que ouve as palavras de Jesus, mas não as coloca em prática. Sua loucura não está em ignorar as palavras de Jesus, mas em desdenhar das questões sérias da vida, não se preocupando em praticá-las.

Quando a tempestade chegou, a casa desmoronou porque não tinha um bom fundamento. Era vulnerável às adversidades da vida, e, por isso, não suportou o impacto do temporal, que destruiu sua base e, consequentemente, toda a estrutura.

A grande lição da Parábola das Duas Casas

Nesta parábola, nos deparamos com dois tipos de ouvintes: aqueles que ouvem as palavras de Cristo e as colocam em prática, e os que ouvem as palavras de Cristo, mas não as aplicam em suas vidas. O primeiro grupo é de pessoas que não apenas prestam atenção, mas também recebem a palavra em seus corações e a obedecem sem restrições. Esses ouvintes têm prazer em ouvir a Palavra divina, considerados bem-aventurados.

Uma valiosa lição da parábola das duas casas é a importância de edificar nossa casa espiritual. Essa casa simboliza nossa fé, que deve estar fundamentada na rocha inabalável, que é Cristo. A Igreja como um todo está edificada sobre essa Rocha, e aqueles que estão em Cristo permanecem firmes nela, depositando toda a sua confiança (1 Pedro 2.4-10).

Em suma, a lição básica que a parábola nos oferece é representada pelas duas casas. Se construirmos nossa casa espiritual (nossa fé) de maneira que ouvir e praticar sejam realidades em nossas vidas, estaremos protegidos contra qualquer tempestade que surja. Qualquer ataque espiritual será neutralizado se estivermos alicerçados na Rocha eleita e preciosa, que é Cristo. Portanto, é fundamental nos questionarmos: “Estou fazendo o que o Senhor me mandou fazer?

Devemos refletir se somos meros ouvintes e praticantes insatisfatórios da Palavra ou se somos bons ouvintes e colocamos em prática aquilo que aprendemos do Senhor. Cada um de nós precisa avaliar sinceramente sua própria vida nesse sentido.

Quando lemos as Escrituras e ouvimos as palavras do Senhor, ao nos tornarmos membros de uma igreja, declaramos nossa fé em Cristo. Essa atitude nos torna responsáveis por garantir que vivamos e aplicamos o que ouvimos (Tiago 1.22-25; 2.14-20). A prática da Palavra é fundamental para fortalecer nossa fé e edificar uma vida espiritual sólida.

Equipe Redação BP

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