O que Jesus quis dizer com “Antes que Abraão existisse, eu sou”?

Ao longo dos Evangelhos, Jesus se descreve de várias maneiras. Suas declarações de si mesmo geralmente se relacionam a títulos ou figuras no Antigo Testamento. Por exemplo, Jesus frequentemente se refere a si mesmo como “o Filho do Homem”, um título profético originalmente dado a Ezequiel. (Ezequiel 2:1Mateus 8:20). 

Da mesma forma, quando Jesus se refere a si mesmo como o “pão que desceu do céu” (Jo 6:33), ele está se referindo à provisão do Maná durante o Êxodo. Ao tomar as imagens e títulos do Antigo Testamento e aplicá-los a si mesmo, Jesus se anuncia como o cumprimento das promessas de Deus.

Uma tal declaração de autoidentidade, no entanto, está acima das outras. Em resposta a um debate acalorado sobre sua identidade, Jesus declara: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8:58). Essencialmente, Jesus se declara uma autoridade maior do que o próprio patriarca de Israel. Tão radical é essa afirmação que os fariseus tentam apedrejar Jesus na hora.

Mas, por que essa declaração foi tão perturbadora para os fariseus? O que exatamente Jesus quis dizer quando chamou a si mesmo de “Eu sou”? 

A própria estranheza da estrutura gramatical dessa afirmação mostra que Jesus está falando sobre algo diferente da pré-existência. Ao chamar a si mesmo de “Eu sou”, Jesus declara uma verdade sobre quem Ele é. Então, para entender toda a nuance disso, devemos voltar ao Êxodo.

O Tetragrammaton: EU SOU

O uso de Jesus de “Eu sou” não é sobre preexistência. Jesus não está declarando que ele é de alguma forma mais velho que Abraão. Se Jesus estivesse falando de preexistência, ele teria dito “antes que Abraão existisse, eu era”, ou mais simples, “eu era antes de Abraão”. Pois, isso deixaria claro que Jesus estava reivindicando uma existência celestial antes do nascimento de Abraão. 

Isso, no entanto, não é o que Jesus diz. Jesus usa especificamente a construção “eu sou” para falar de sua identidade. Muitas traduções desta escritura irão capitalizar esta declaração para que o texto leia “Antes que Abraão existisse, EU SOU”. Capitalizar a declaração fornece uma pista visual de que Jesus está se referindo ao que é conhecido como Tetragrammaton. 

Primeiro encontramos o Tetragrammaton no livro de Êxodo. Encontra-se na história de Moisés com a sarça ardente

Deus chama Moisés para libertar Israel da escravidão egípcia. A certa altura, Moisés pede o nome do Deus que o envia. Moisés pergunta: “Suponha que eu vá aos israelitas e diga a eles O Deus de seus pais me enviou a vocês, e eles me perguntam: Qual é o nome dele? Então o que devo dizer a eles?” (Êxodo 3:13). 

Em resposta, Deus declara: “Isto é o que você deve dizer aos israelitas: EU SOU me enviou a vocês” (3:14). 

Dessa forma, fica claro por esta conversa que Deus revela o nome divino.

No Antigo Testamento, fala-se de Deus através de muitos títulos ou descrições diferentes, como El-ShaddaiElohim ou Adonai. 

O Tetragrammaton, entretanto, não é um título, é o nome de Deus. Em inglês, “EU SOU” torna-se “Yahweh”. Em hebraico, Yahweh é escrito com apenas quatro letras hebraicas, razão pela qual chamamos isso de tetragrama (literalmente, quatro letras). Yahweh é o nome associado a Deus Pai. 

Na conversa com Moisés, então, Deus revela o nome único de Deus: um nome traduzido como “EU SOU”.

A Proclamação Radical: EU SOU

antes de mais nada, Jesus é intencional com suas palavras. Ele está deliberadamente invocando o nome de Deus e aplicando-o a si mesmo. Ou seja, ao chamar a si mesmo de “Eu Sou”, Jesus está proclamando radicalmente sua identidade divina. 

Israel considerava o nome de Deus santo, por isso não deveria ser encontrado nos lábios das pessoas. É por isso que os fariseus tentam apedrejá-lo. Jesus não apenas fala o nome que não deve ser dito, mas aplica o nome de Deus a si mesmo. João registra que “pegaram pedras para apedrejar Jesus, mas ele se escondeu, escapando do terreno do templo” (João 8:59). 

Se Jesus estava simplesmente sugerindo que ele existia antes de Abraão, então por que os fariseus buscaram sua morte? Isso não teria sido uma ofensa para que o apedrejassem. 

Jesus teria sido considerado louco, ou possuído por demônios, mas não uma pessoa digna de morte. A ira dos fariseus se explica porque Jesus usou o nome divino. 

Em outra disputa sobre sua identidade, Jesus faz a afirmação audaciosa de que “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30). Novamente, os oponentes de Cristo tentam apedrejá-lo. 

Quando questionados sobre o motivo de tal ação, seus oponentes judeus respondem: “Não o apedrejamos por nenhuma boa obra, mas por blasfêmia, porque você, um mero homem, afirma ser Deus” (João 10:33). 

Dessa forma, ao dizer que ele e o Pai eram um, Jesus descreve uma igualdade com Deus o Pai. Pois, todos entenderam o que ele estava dizendo.

Jesus fala aberta e claramente sobre sua natureza divina. Ele deliberadamente aplica o nome de Deus a si mesmo. 

Jesus se declara a própria encarnação do Deus revelado a Moisés na sarça ardente. 

Foi por esta razão que Jesus foi crucificado. Jesus foi crucificado sob a acusação de blasfêmia. O Evangelho de João testifica que “os líderes judeus insistiram: “Nós temos uma lei, e de acordo com essa lei ele deve morrer, porque ele afirmou ser o Filho de Deus” (João 19:7). 

Tudo o que Jesus fez reforçou esse fato fundamental. Dos milagres realizados, à quebra dos regulamentos do sábado, às declarações de identidade própria, ao uso do nome divino, as autoridades entenderam claramente que Jesus afirmava ser Deus. 

As outras declarações EU SOU

Um sábio pré-existente nunca pode oferecer uma nova vida. Um homem confuso sobre sua própria identidade não tem o poder de transformar nossas almas cansadas. 

CS Lewis escreveu: “Um homem que fosse apenas um homem não seria um grande professor de moral. Ele seria um lunático ou então ele seria o Diabo do Inferno”. Tudo o que Jesus disse e fez desmorona, não acreditamos em sua identidade fundamental como a presença encarnada de Deus. 

A redenção só pode ocorrer quando encontramos o único e verdadeiro Senhor. Porque Jesus é o divino EU SOU, podemos confiar nele para trazer para nossas vidas tudo o que ele prometeu. 

Jesus tem o poder e a autoridade para prover redenção, satisfação e nova vida. Jesus descreve essas promessas por meio de sete declarações “eu sou”. 

1. Eu sou o pão da vida (João 6:35):

Jesus nos oferece nutrição, força e satisfação espiritual.

2. Eu sou a luz do mundo (Jo 8.12):

Jesus ilumina o que é verdade sobre este mundo e sobre nós mesmos.

3. Eu sou a porta para as ovelhas (João 10:7):

Jesus fornece uma maneira de conhecer a Deus plena e profundamente.

4. Eu sou a ressurreição e a vida (João 11:25):

Jesus concede o dom gratuito da vida eterna a todos os que vêm a ele com fé. 

5. Eu sou o bom pastor (João 10:11):

Jesus cuida de nós, nos guia e nos protege.

6. Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6):

Jesus revela a plenitude da identidade, verdade e atividade de Deus.

7. Eu sou a videira verdadeira (Jo 15:1):

Jesus nos dá sua vida como fonte de refrigério e vitalidade. Jesus vive em nós e flui através de nós.

Antes que Abraão existisse, eu sou…

A menos que Jesus seja a presença encarnada de Deus, as declarações acima são desprovidas de poder. Essas declarações, e as inúmeras outras palavras encorajadoras de perdão e graça, fluem da identidade fundamental de Cristo. Eles são baseados em Jesus sendo o EU SOU.

Só temos esperança se Jesus for quem disse ser. É somente como Senhor e Salvador que Jesus pode afetar nossas vidas. Como a encarnação divina de Yahweh, Jesus traz perdão, graça e salvação. Para Jesus ser alguém diferente disso, não há esperança de salvação.

Quando Jesus diz que ele é o “EU SOU”, ele se estabelece como o ponto de contato para todas as bênçãos de Deus. Podemos confiar nas promessas que Jesus traz para nossas vidas. Suas bênçãos não são simplesmente para exibição. Jesus não diz simplesmente coisas que queremos ouvir. Jesus tem o poder, a capacidade e a vontade de transformar nossas vidas e nos oferecer a salvação. 

Podemos estar confiantes nisso porque Jesus disse: “antes que Abraão existisse, EU SOU”.


Autor Reverendo Kyle Norman, adaptado por Biblioteca do Pregador.

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