Por que Judas traiu Jesus?

Imagine que você está nos tempos bíblicos durante a semana da Páscoa. Há poucos dias, no domingo, Jesus teve uma entrada triunfal em Jerusalém.

Uma enorme multidão de pessoas se alinhava nas ruas que ele percorreu. Alguns deles estenderam suas capas na estrada. Outros cortam galhos das árvores e os espalham pela estrada. O povo gritava: “Hosana ao Filho de Davi! Bem-aventurado aquele que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!”

No entanto, neste dia, Jesus diz a seus discípulos o seguinte: “Vocês sabem que daqui a dois dias vem a Páscoa, e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado”.

Os discípulos estão aborrecidos e confusos com essas palavras. Um deles, Judas Iscariotes, foge dos outros e vai ao palácio do sumo sacerdote, Caifás, onde estão reunidos os principais sacerdotes e os anciãos do povo.

“O que vocês me darão se eu o entregar?” Judas pergunta a eles.

O preço da traição

Eles pagam a Judas 30 moedas de prata.

Na quinta-feira à noite, enquanto Jesus e seus discípulos estão comendo a ceia da Páscoa no cenáculo, Jesus diz: “Em verdade vos digo que um de vós me trairá”.

Judas pergunta a Jesus: “Sou eu, mestre?” Jesus responde: “Tu o disseste”.

Então, Judas sai do cenáculo.

Poucas horas depois, depois de orar no Getsêmani, Jesus diz: “Veja, a hora está próxima, e o Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores. Levante-se, vamos; veja, meu traidor está próximo.”

Nesse momento, chega Judas, acompanhado por uma grande multidão com espadas e porretes, enviada pelos principais sacerdotes e pelos anciãos do povo. 

Judas se aproxima de Jesus, o cumprimenta e o beija, que é o sinal combinado para a multidão. Eles agarram Jesus e os discípulos fogem.

Na manhã seguinte, Jesus é condenado a morrer por crucificação. À tarde, ele está morto.

Por que Judas traiu Jesus? Por que um dos 12 discípulos traiu seu Senhor?

Vejamos quatro teorias para o “porquê” por trás da traição de Judas a Jesus.

Teoria 1: Judas na verdade não traiu Jesus.

Em uma extremidade do espectro teórico está uma proposta do professor de pesquisa William Klassen. Em seu livro Judas: Traidor ou Amigo de Jesus? Ele argumenta que Judas trabalhou para construir uma ponte entre os líderes judeus e Jesus. E que Jesus tinha pleno conhecimento do que Judas estava fazendo. Klassen então sugere que, em vez de trair Jesus às autoridades, Judas foi traído por essas autoridades.

Klassen afirma que o principal papel de Judas foi mover as autoridades do Templo “da vacilação para a ação”. 

Prestando atenção especial em como Judas reagiu ao que aconteceu depois que ele identificou Jesus com um beijo, Klassen supõe que Judas nunca pensou que suas ações “levariam à corte de Pilatos ou à morte de Jesus”. Klassen escreve que há “razões abundantes para dar a Judas o benefício da dúvida”.

A fraqueza primária e, sem dúvida, fatal na teoria de Klassen é sua suposição de que Jesus não sabia o que ia acontecer.

“De maior importância é o reconhecimento de que Judas colaborou com o próprio Jesus para realizar o que Jesus queria que fosse feito: a vontade de Deus. Ele não queria morrer; ele não demonstra nenhum desejo de morte em nenhum momento. Mas ele teve que se entregar ao poder daqueles encarregados de fazer a vontade divina, as autoridades religiosas. Qual seria o resultado disso, ninguém sabia…”

Teoria 2: Judas era ruim desde o início.

No outro extremo do espectro teórico está a proposta de que Judas traiu Jesus porque ele sempre foi um cara mau… um lobo em pele de cordeiro. 

Esta teoria baseia-se fortemente no retrato de Judas no Evangelho de João, que apresenta um retrato muito pouco lisonjeiro de Judas. aqui estão alguns exemplos:

  • João 6: Depois de confundir muitos de seus seguidores ao dizer que eles deveriam comer sua carne e beber seu sangue, Jesus diz que suas palavras são espírito e vida, mas algumas pessoas simplesmente não acreditam nelas. João então insere um comentário entre parênteses – “Pois Jesus sabia desde o princípio quem eram os que não acreditavam e quem o trairia”. – o que implica que Judas nunca acreditou.
     
  • João 6: Depois que Pedro fala pelos outros discípulos, dizendo que eles “creram e souberam que tu és o Santo de Deus”, Jesus responde: “Não vos escolhi a vós, os doze? E, no entanto, um de vocês é um demônio.” João explica: “Ele falou de Judas, filho de Simão Iscariotes, pois ele, um dos doze, ia traí-lo.”
     
  • João 12: Quando Maria unge os pés de Jesus com unguento caro, Judas reclama que poderia ter sido vendido por 300 dias de salário, com o dinheiro dado aos pobres. João comenta que Judas não se importava com os pobres, mas “era um ladrão, e tendo o controle da bolsa de dinheiro, ele se serviu do que foi colocado nela”.

Um problema com essa teoria de que Judas era ruim desde o início é o fato de Jesus ter escolhido Judas para ser um de seus 12 discípulos. Se Judas realmente foi mau o tempo todo, então:

  • Por que Jesus escolheu Judas para estar em seu círculo íntimo por três anos?
  • Por que Jesus deu a Judas a responsabilidade de administrar a bolsa de dinheiro?
  • Por que Jesus deu a Judas e aos outros discípulos “poder e autoridade para expulsar demônios e curar doenças” e enviá-los “para proclamar o reino de Deus e curar os enfermos?” (Ver Mateus 10, Marcos 6 e Lucas 9) 
  • Por que Jesus não transformou Judas nos três anos que passou quase todos os dias com ele?

Outro problema com essa teoria é o que Judas fez depois que Jesus foi condenado à morte:

Então, quando Judas, seu traidor, viu que Jesus estava condenado, mudou de ideia e devolveu as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos, dizendo: Pequei ao trair sangue inocente. Eles disseram: O que é isso para nós? Cuide disso você mesmo. E jogando as moedas de prata no templo, ele partiu, e foi e se enforcou. (Mateus 27:3-5)

Por que um homem mau sentiria remorso por “trair sangue inocente?”

Teoria 3: “Satanás entrou em Judas” durante a Semana Santa.

Enquanto o Evangelho de João parece retratar Judas como mau desde o início, outras passagens da Bíblia e os primeiros estudiosos cristãos o apresentam como um legítimo seguidor de Jesus que, em um momento crítico, caiu sob a influência de Satanás.

Enquanto Mateus e Marcos afirmam simplesmente que Judas foi às autoridades para fazer arranjos para uma traição, Lucas acrescenta uma frase-chave à declaração (que enfatizo abaixo):

  • Mateus 26:14-15: Então um dos doze, cujo nome era Judas Iscariotes, foi até os principais sacerdotes  e disse: “O que me dareis se eu o entregar a vocês?” E eles lhe pagaram trinta moedas de prata.
     
  • Marcos 14:10-11: Então Judas Iscariotes, que era um dos doze, foi ter com os principais sacerdotes para o entregar a eles. E quando eles ouviram, ficaram contentes e prometeram dar-lhe dinheiro. E ele procurou uma oportunidade para traí-lo.
     
  • Lucas 22:3-4: Então Satanás entrou em Judas chamado Iscariotes, que era do número dos doze. Ele foi embora e conferiu com os principais sacerdotes e oficiais como ele poderia traí-lo a eles.

A crença de que Judas era um seguidor legítimo de Jesus até cair sob a influência de Satanás foi mantida por alguns estudiosos e teólogos da igreja primitiva, como Orígenes (184-253 dC).

Em seus escritos, Orígenes aponta que, quando Jesus diz que um de seus discípulos o trairia, nenhum dos discípulos sabia que era Judas. 

Isso poderia indicar que Judas tinha sido um bom discípulo que era amado por seu Mestre. Quanto a Judas ser um ladrão, Orígenes considera a cobiça uma fraqueza crítica em Judas, que Satanás pode ter explorado durante a Semana Santa. 

Orígenes argumenta que, uma vez que Jesus estava em cativeiro, Satanás deixou Judas, e o traidor caiu em si. Seu ato de arrependimento foi, segundo Orígenes, real e sincero.

Afirmar que Judas caiu sob a influência de Satanás oferece uma explicação incompleta da traição de Judas, porque não dá um motivo. 

Poderia um seguidor próximo de Jesus tornar-se mau por alguns dias e depois voltar a si tão rapidamente quanto caiu?

Teoria 4: Judas tentou forçar Jesus a subir ao poder.

Durante os dias de Jesus, o povo de Israel estava sob o domínio de Roma. Eles queriam desesperadamente derrubar seus opressores e restabelecer sua nação. 

Eles precisavam de um rei ungido para liderá-los nessa busca. Poderia ser Jesus? Claramente ele foi escolhido por Deus. Ele realizou milagres. Ele falou com autoridade sobre um novo reino. E ele atraiu grandes multidões.

Quatro dias antes de ser traído, Jesus entrou em Jerusalém montado em um jumentinho, filho de jumenta. Foi a profecia de Zacarias (Zc 9:9). Certamente, Jesus era o rei prometido que salvaria o povo de seus opressores políticos.

Os discípulos viram Jesus em ação curando os enfermos, ressuscitando os mortos, andando sobre as águas e até mesmo acalmando uma tempestade furiosa com uma única palavra. 

Eles sabiam que Jesus podia fazer qualquer coisa… inclusive derrubar os romanos. O reino sobre o qual Jesus falou tinha que ser o reino de Israel, restaurado ao poder. É por isso que Tiago e João pediram para se sentar à direita e à esquerda de Jesus naquele reino.

Jesus estava em Jerusalém. As multidões ali o proclamaram rei. Agora era o momento perfeito para Jesus assumir o trono e liderar o esforço para derrubar os romanos. Quando Jesus não agiu, talvez Judas tenha decidido forçar sua mão.

Por um breve momento, pareceu o movimento certo. Cercado por centenas de soldados, Jesus disse: “EU SOU!”, e todos caíram no chão (João 18:6). 

Mas, em vez de se tornar um messias político, Jesus permitiu que os soldados o levassem para um julgamento simulado, uma condenação e uma execução. 

E Judas percebeu que havia cometido um erro terrível… ou assim diz a quarta teoria.

O que isso significa para nós

Independentemente do motivo pelo qual ele traiu Jesus, Judas será para sempre lembrado como um traidor. 

Como Jesus predisse, “…ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Teria sido melhor para aquele homem se ele não tivesse nascido.” (Mateus 26:24)

Quando seguimos a Jesus, precisamos segui-lo diligente e fielmente, onde quer que ele nos leve. E precisamos orar por uma visão sobre quais são seus planos para nós. 

Como disse uma vez Abraham Lincoln: “Senhor,  minha preocupação não é se Deus está do nosso ladominha maior preocupação é estar do lado de Deus, pois Deus está sempre certo.”

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